Origens
São várias as teorias sobre as origens do cante alentejano. Uma delas é a teoria colectiva e espontânea. Outra teoria é a de que os camponeses mais dotados seriam os autores das músicas. A teoria mais seguida é, porém, a alemã de Gesunkenes Kulturgut que diz que toda a arte popular se baseia na degradação de materiais aprendidos. Segundo esta teoria o povo não cria, reproduz, assimila, adapta e, por vezes deforma melodias que lhe foram apresentadas.
As canções regionais alentejanas são designadas por “Modas”
As modas fizeram-se para ser cantadas, sem ser acompanhadas por instrumentos.
Ora, se nos reportarmos à época da polifonia clássica, constatamos o seguinte: O século XV é o século dos grandes Mestres de Capela como Duarte Lobo, Frei Manuel Mendes, Frei Manuel Cardoso, em Évora, cidade onde existia uma escola de polifonia clássica. Em 1430, Mendes Gomes Seabra funda em Évora o convento dos Paulistas. Dez anos depois, em 1440, Frei Mateus de Frois, eremita da Serra de Ossa, principia na vila de Serpa, no Baixo Alentejo, a fundação de convento de Nossa Senhora da Conceição e o dos frades paulistas, que abriram naquela vila “escolas de canto popular”. Destas escolas fundadas pelos frades paulistas em Serpa nada ficou sobre a invenção das modas. No entanto, seria talvez de admitir essa hipótese como prova que teriam praticado o que tinham aprendido na escola de polifonia clássica em Évora, simplificando e adaptando o sistema ao povo.
Influências históricas
Cânticos Árabes – A longa ocupação islâmica influenciou a melodia e a melancolia de algumas modas.
Coros Gregorianos – Sugere-se uma possível influência da polifonia das igrejas católicas.
Fabordão (Século XIV/XV) – Acredita-se que o cante tem raizes na polifonia clássica, nomeadamente no “falso bordão” onde uma voz canta a melodia e a outra acompanha em intervalos.
O Cante começa com o “ponto” (voz grave) que dá a “deixa”, seguida pelo “alto” (voz aguda) que ornamenta a melodia, e finalmente o grupo (coro) que canta os versos.
O Cante na vida do povo alentejano
As modas, constituem a manifestação simples, espontânea e expressiva da vida do seu povo, através da musica e do verso. Nelas se podem e devem estudar as suas tradições, costumes, psicologia, crenças, hábitos e comportamentos.
As modas serviam o povo alentejano em todas as manifestações sentimentais, na alegria e na tristeza, utilizando-as como valores criados, vividos e transmitidos de pais para filhos, de geração em geração, as modas eram, até certo ponto e sob vários aspectos, os meios de comunicação social daquele tempo, em que os povos viviam isolados, sem estradas nem transportes rápidos e adequados. As festas, em geral, em que os povos se visitavam, os mais vizinhos, forneciam as modas que, bem ou mal aprendidas, iam cantar-se noutros povos.
O cante alentejano era uma manifestação informal, espontânea que acontecia no campo. O cante marcava um movimento lento, o ritmo, a cadência do trabalho à jorna, nomeadamente das colheitas que mais caracterizavam a agricultura alentejana, a ceifa, a monda e a apanha da azeitona. Com o cante estimulava-se a competição entre trabalhadores, o cante colectivo projectado em uníssono dava o mote para homens e mulheres e crianças darem o seu melhor nas tarefas agrícolas.

Na sua origem o cante era prática não só dos homens como das mulheres, ambos trabalhavam no campo ambos protagonizavam essa prática cultural.

Nos anos 20 e 30 do século XX, com o declínio da economia tradicional agrícola, o cante passa do campo para as tabernas, silenciam-se desta forma as mulheres que até então desempenhavam um papel tão importante como os homens no cante alentejano. Neste período organizam-se formalmente os primeiros grupos corais, com coreografias, ensaios e actuações públicas.
Só depois de 1974, com a revolução de Abril, com o aparecimento de novos movimentos sociais e culturais, as mulheres voltam a cantar organizando-se em grupos corais ou mistos.

O cante representa a cultura popular tradicional do povo do Baixo Alentejo, de um valor extraordinário, com a sua identidade própria, as suas características especificas e a sua peculiar interpretação.
O Cante é reconhecido como Património Mundial Imaterial da Humanidade pela UNESCO, em 27 de Novembro de 2014, na reunião do seu comité em Paris.



