OS SOPRADORES ESTRANGEIROS DA FÁBRICA DOS VIDROS DE AMORA
A Fábrica dos Vidros de Amora, nas Lobatas, foi fundada em 22 de Novembro de 1888 pelos irmãos James e William Gillman e por Justino Guedes e José L. da Silva Gomes.
A fábrica foi dotada com máquinas de origem inglesa e com sopradores do mesmo país.
As relações dos sopradores com os proprietários da fábrica deterioram-se, motivando greves devido ao facto de os operários pretenderem salários e condições de trabalho semelhantes às praticadas em Manchester, o que levou á sua expulsão e ao encerramento da fábrica.
Uns meses depois formou-se um consórcio ítalo-português. A Companhia da Fábrica de Vidros na Amora foi criada no mesmo local com capital dos irmãos Centeno e David Corazzi. A fábrica foi dotada com tecnologia alemã, os altos-fornos e fornos de fundição são da empresa Siemens & Halske.
A 2 de julho de 1890, chegam à Amora, via Hamburgo, 30 sopradores de vidro, seus assistentes e famílias. São cerca de 160 pessoas, é a terceira maior comunidade alemã em Portugal.
De acordo com os registos, os trabalhadores vieram da Boémia, da Silésia, da Turíngia, de Württemberg, da Baviera, de Hamburgo, da Saxónia, de Hesse-Nassau, de Hanover, da Prússia, do Tirol e até de Vladivostok (i.e., a maioria veio de regiões da actual Alemanha e também das actuais República Checa, Polónia, um pequeno número veio da Áustria e do extremo leste da Rússia).
Rapidamente, os novos habitantes estabeleceram contacto com a população local, os casamentos mistos tornaram-se uma realidade.
Para estes operários e suas famílias foi construída uma correnteza de casas junto da marginal marginal que ficou pronta em 1891. Tratavam-se de casas simples, térreas, cada uma com quatro assoalhadas, cozinha e casa de banho, os trabalhadores mais qualificados receberam edifícios de dois pisos mais espaçosos. No total foram construídas 42 casas térreas e 6 casas de dois pisos.
A correnteza ficava junto da fábrica, o caminho para o trabalho era curto. O trabalho começava às 6h30, uma hora depois no inverno. As condições de trabalho eram difíceis,
– 51 horas por semana no forno de fusão da Siemens – certamente o trabalho mais difícil.
– 8,5 horas de trabalho com maçarico.
Como não havia cantina os operários iam almoçar a casa, tinham uma hora para almoço.
Os trabalhadores alemães recebiam três marcos do Reich para cada cem garrafas sopradas, ou seja, mais do que o dobro do que recebiam em sua terra natal.

Na Amora foram soprados 18 tipos de garrafas diferentes, desde a garrafa de 0,5 litro a formatos inusitados para vinhos nobres, ao garrafão de 5 litros.
A produção anual totalizava pouco mais de dois milhões de garrafas de todos os tamanhos e feitios, em 1892 cada trabalhador qualificado soprava entre 240 e 260 garrafas no seu turno.
As doenças profissionais são descritas num relatório de 1893, enfisema pulmonar, tuberculose, fibrose e silicose, doenças mortais que coroavam uma vida de trabalho duro.
Outro problema era o alcoolismo, a tentação do schnapps (1) foi mais forte para muitos destes alemães. A tal ponto que o chefe do serviço de bem-estar popular do Seixal informava por escrito o seu superior, a 23 de Agosto de 1890, “… que a Amora deve ser rigorosamente vigiada, as tabernas têm de encerrar em horários fixos para evitar que os estrangeiros das fábricas locais levem a noite toda a jogar, a cantar e a beber. ”

Era necessária uma escola e um espaço religioso por isso foi concluído um edifício de 3 pisos no final da correnteza de casas. Foi delegado, pela Igreja Evangélica Alemã de Lisboa, um pregador auxiliar de seu nome Friedrich Hünemörder que descreve assim a sua nova casa, “O andar térreo era composto pela sala de aula. Meu apartamento oficial ficava no primeiro andar tinha uma cozinha, e cinco pequenas assoalhadas. A escola naturalmente também serviu de igreja.”
A escola era muito necessária. Em 1891, um vagabundo apareceu na Amora a pedir esmola. Era um homem muito viajado, encadernador de profissão. Apresentou-se como professor e foi contratado, mas dois anos depois o alcoolismo tomou conta dele e foi encontrado literalmente numa sarjeta, pelo que foi despedido.
A partir daí é Hünemörder que toma conta da escola. Em 1906 a Escola Alemã de Amora teria 18 rapazes e 18 raparigas divididos por 3 níveis, 18 eram católicos e 18 eram protestantes. A língua de ensino era o alemão. Mais tarde, pouco antes da Primeira Guerra Mundial, a Escola tinha 4 níveis e 68 alunos sendo referida como exemplo, em pleno parlamento português: “… posso citar um facto que é frisante e que mostra como noutros países se cuida pela instrução. Numa fábrica de vidros da Amora, para aperfeiçoamento da sua indústria mandaram vir da Alemanha uns operários, que não eram muitos; pois o primeiro cuidado do Governo alemão foi mandar vir um professor para aquela colónia.”
Quando o pastor Bindseil veio a Amora, pela primeira vez, em setembro de 1891, a colónia alemã contava com 120 almas.
Os registos indicam que a comunidade se dividia a meio entre protestantes e católicos. Os pastores tentaram convencer os fiéis a assistir aos serviços religiosos em Lisboa, mas foram ignorados.
“O caminho de Amora até a capital era difícil. Na virada do século a única ligação era um barco à vela ou a remos. Os preguiçosos marinheiros cargueiros (saveiros) precisavam de até cinco horas para atravessar o Mar da Palha, dependendo do vento e da corrente.”
Além disso a travessia era cara.
Foi, então, criado o cargo de pastor depois de negociações entre o Ministério dos Negócios Estrangeiros, o pastor evangélico Oberkirchenrat e Gustav-Adolf-Verein.
Em 1894, aconteceu na Amora o primeiro serviço ecuménico. No livro da igreja Evangélica Alemã são registados dez batismos, em 11 de março de 1894, todos evangélicos. A idade dos baptizados situa-se entre os 4 e os 15 anos, também em 1895 ocorreram mais “baptismos de grupo”. Até 1899, os documentos DEKL (Igreja Evangélica Alemã de Lisboa) fornecem informações sobre a vida comunitária dos sopradores de vidro de Amora, as festas de Natal, e os concorridos cultos de Páscoa.

Existia um cemitério alemão que é documentado por uma foto tirada entre 1934-36 pelo Reverendo Gennrich, situado talvez, numa área adjacente ao cemitério de Amora.
Em 1895, os sopradores de vidro alemães tornaram-se membros da Sociedade Filarmónica Operária Amorense, mas por volta de 1900 deixa a Sociedade Filarmónica e, juntamente com ingleses da fábrica de cortiça Mundet , formam um clube conjunto.
Politicamente, os imigrantes os alemães segundo Hünemörder “Eram zelosos sociais-democratas!”. Por isso, tiveram algumas dificuldades com as autoridades da monarquia devido às suas ideias. Um relatório policial de Amora, datado de 9 de outubro de 1890 refere:
“… acusações contra Johann Michalsky, um cidadão alemão, soprador de vidro, residente em Amora por tentativa de ataque aos superiores “.
Mais tarde, este Michalsky tornou-se um homem de família e, provavelmente um protestante devoto.
No período entre 1902 e 1916 a comunidade alemã oscilou entre aproximadamente entre 150 e 300 indivíduos.
Quando em 9 de Março de 1916, a Alemanha declara guerra a Portugal dá-se o confisco de bens da comunidade alemã.
Em Setembro de 1916, de acordo com um registo existente no arquivo do Seixal “Os operários e técnicos alemães da Amora são expulsos e seus bens confiscados devido à Grande Guerra”.
Vários sopradores de vidro fogem para Espanha, foram para Madrid, outros partem para Alicante, Barcelona, Málaga e Vigo.
Alguns luso-alemães regressaram, de Espanha, entre 1920 e 1922.
Até 1930 viveram na Amora cerca de 140 alemães, depois perdeu-se-lhes o rasto.
Em 1983, foi feito um levantamento arqueológico. Lamentavelmente, a fábrica desapareceu e tudo o que sobra, são as ruínas da correnteza do bairro operário.
O gradeamento verde desapareceu, o último morador há muito fechou a porta, as casas estão descaracterizadas ou, arruinadas.
A Amora está em risco de perder uma zona emblemática e mais do que isso, os vestígios do processo de industrialização de que a sua Fábrica de Vidros foi pioneira em Portugal.
(1) – tipo de bebida alcoólica destilada. A palavra vem do alemão Schnapps ou Schnaps, usado para se referir a qualquer tipo de aguardente, particularmente aquelas que contêm teor de 32% de álcool.
Fonte: Internet




