Genealogia

Genealogia palavra de origem grega (genes – origem, nascimento e logia – estudo, conhecimento) é uma ciência auxiliar da história que estuda a origem, a evolução e a dispersão das famílias, assim como os seus nomes e sobrenomes ou apelidos e as suas linhagens para traçar um mapa das ligações biológicas e afinidades entre diferentes indivíduos e gerações.

Para a elaboração da genealogia, utilizam-se registos históricos, entrevista orais, análise genética e fontes secundárias para construir  árvores genealógicas tratando das ligações de parentesco tanto em sentido vertical (dos ancestrais para os descendentes ou vice-versa) bem quanto em sentido horizontal (dos irmãos e primos entre si).

Modelo primitivo de árvore genealógica 

Em tempos passados era praticada exclusivamente pela elites declarando parentescos a fim de consolidar o prestígio das famílias e legitimar suas pretensões ao poder, mas não havia preocupação em provar as ligações documentalmente ou preservar uma memória familiar no sentido moderno, em geral misturando indiscriminadamente mitos, lendas e factos. A partir de fins do século XVII, passou a ser investigada de maneira cientifica, mas manipulações ideológicas persistem até hoje. A genealogia tem associações profundas com uma ampla variedade de políticas e ideologias raciais, sociais, culturais e nacionalistas, e é um elemento fundamental na estruturação, coesão e funcionamento das sociedades.

Na a pesquisa genealógica tornou-se uma atividade extremamente popular, que tem provocado um impacto importante nas formas de entendimento do passado e das origens pela população. 

A genealogia se ocupa da identificação da ligação biológica entre diferentes indivíduos e da reconstituição da sequência ordenada de gerações dentro de um grupo familiar, buscando determinar as origens, a rede de parentescos e a evolução cronológica da família.

pastedGraphic.pngModelo de árvore genealógica com os graus de parentesco.

A genealogia é reconstituída através de documentos escritos, como atos legais (certidões de nascimento, casamento e óbito, contratos, inventários, testamentos, etc.), bibliografia histórica, crónicas, arquivos cívicos, familiares, judiciais, militares e religiosos, correspondência, inscrições, lápides, imprensa e outros, mas também pode-se valer de tradições orais e imagens. 

Árvore genealógica do rei D. Pedro I

Um dos principais problemas da pesquisa genealógica é assegurar a veracidade das informações transmitidas pelos documentos e tradições. A oralidade em geral é uma fonte pouco confiável, sendo particularmente propensa a distorções e imprecisões, mas usualmente conserva uma parte de verdade. Documentos podem conter erros inadvertidos, e podem conter informações deliberadamente falseadas. Falsificação de fontes e de árvores genealógicas foram e ainda são expedientes comuns. A documentação pode atestar uma filiação oficialmente reconhecida, mas também pode dissimular uma adoção secreta ou o fruto de um adultério. Quando o pesquisador imagina estar seguindo a linha do sangue, pode estar seguindo uma linha que é apenas documental, e quanto mais se recua no tempo, mais difícil é descobrir se esses desvios ocorreram ou não. Estimativas precisas são impossíveis, mas calcula-se que na população europeia exista uma taxa média de até 4,5% de falsa paternidade.

Determinar a veracidade nem sempre é possível, e por isso a genealogia é uma ciência que tem de lidar com grandes doses de incerteza. Mesmo quando se sabe que as informações são inverossímeis, elas podem conter elementos verdadeiros e podem apontar para pistas que levem ao descobrimento da verdade. 

A genealogia a todo momento envolve o trabalho com documentos antigos, muitas vezes em línguas diferentes ou em dialetos já poucos compreensíveis, em caligrafias difíceis, ou com expressões de significado múltiplo ou dúbio, elementos cuja decifração e interpretação correta estão além do alcance de amadores.

Outro problema relevante é a dificuldade de traçar a genealogia pela inconsistência nas maneiras de denominação das pessoas, que não usavam sobrenomes antes do século XI, no século XVI a adoção de sobrenomes ainda não se generalizara.

Por muito tempo as pessoas foram denominadas pela sua profissão, pelo nome do pai, pelo lugar de origem ou por algum apelido atribuído à família, como por exemplo João Ferreiro, Antônio de Batista [filho de Batista], Pedro de Florença ou José o Velho, ou de maneiras arbitrárias. Muitos desses apelativos acabaram se fixando como sobrenomes. 

Mesmo depois de estabelecidos, os sobrenomes podem mudar por várias razões, como para evitar perseguições políticas, para ocultar uma origem indigna, por tradições locais, por apadrinhamentos, por erros de registro que se perpetuam nas gerações sucessivas. Costumes locais podem influir muito. A tradição portuguesa, por exemplo, foi muito livre quanto à adoção de sobrenomes, podendo ocorrer vários na mesma célula familiar, usados sem continuidade consistente. Além desses problemas, a existência de muita homonímia que frequentemente leva à confusão entre indivíduos diferentes.

Tampouco a posse de um mesmo sobrenome é garantia de parentesco; de facto, a homonímia entre famílias não consanguíneas é extremamente comum. Inúmeros sobrenomes familiares se originaram de alcunhas, de patronímicos, de nomes de coisas, animais, ofícios, santos ou lugares que tinham uso generalizado, a exemplo de Ferreira (do ofício de ferreiro), Peixe (animal), Carneiro (animal), Pilar (objeto), Barros (material), Cardoso (da planta do cardo), Castro (castelo), Moreira (da árvore amoreira), Alves (antigamente Álvares, significando “filho de Álvaro”), Fernandes (“filho de Fernando”), Santana (Santa Ana), Serra (ferramenta), Carreiro (caminho), Cunha (ferramenta), e muitos outros, todos de larga difusão no mundo lusófono, pertencentes cada um a numerosas famílias de origens biológicas, cronológicas e geográficas inteiramente diferentes.

O interesse pela genealogia não é novo. Na Antiguidade muitas famílias ilustres traçaram genealogias que as associavam a ancestrais de tempos remotos, não raramente incluindo entre eles personagens fictícios como heróis lendários e divindades, incorporados às genealogias para emprestar-lhes prestígio. Enquanto em tempos passados a genealogia misturava indiscriminadamente mitos e fatos, e era usada antes para afirmar um parentesco do que para comprová-lo objetivamente, a partir do século XVIII iniciou um movimento em direção a uma pesquisa de caráter científico, que se tornou a abordagem empregue atualmente nos estudos genealógicos.

Árvore genealógica dos descendentes de Carlos Magno 

Atualmente a pesquisa da genealogia familiar se tornou uma atividade extremamente popular, sustentada pela disponibilização de uma vasta quantidade de dados arquivísticos e bibliográficos através da internet.

    pastedGraphic_4.pngUma representação contemporânea da genealogia da dinastia Júlio – Claudiana. 

A busca pelas origens pode ter várias motivações num mundo que muda rapidamente, onde crescem os sentimentos de distância e desenraizamento e aumentam as dificuldades nos relacionamentos sociais. Pode trazer informações interessantes de um modo geral, pode preservar a memória familiar, pode fortalecer o senso de identidade ou de pertencimento a um grupo, pode criar ligações concretas com parentes antes desconhecidos, ultrapassando barreiras geográficas e culturais, pode proporcionar explicações para aspectos da vida presente e lições úteis para a vida futura, e a percepção da continuidade geracional pode dar um novo sentido à existência e reforçar a auto-estima.

 “Ser membro de uma linhagem promove um sentido quase interpessoal do passado. Em outras palavras, promove uma maneira quase autobiográfica de vivenciar até mesmo eventos históricos muito distantes”, acrescentando que há muitos testemunhos de que conhecer as origens transformou profundamente a visão que as pessoas tinham de si mesmas e de seu lugar no mundo, mas que essa revelação pode ser entusiasmante ou desagradável.

Há outros aspectos relevantes. Elementos genealógicos, reais ou imaginados, são onipresentes em ideologias políticas relativas aos conceitos de raça e etno-nação e em mitos fundadores de culturas, comunidades e nações, e são centrais para a manutenção da sua integridade, identidade e coesão. 

Os laços biológicos ou familiares são um poderoso estruturador do funcionamento das sociedades, e a identificação do lugar do indivíduo nesta rede é um fator importante na determinação do seu comportamento social e no seu bem-estar psíquico e emocional. A herança pode transmitir bens materiais mas também capitais simbólicos e sociais. Descender dos fundadores da comunidade ou de um personagem ilustre do passado, por exemplo, muitas vezes acrescenta prestígio e poder aos seus descendentes mesmo após muitas gerações, pode abrir muitas portas e ser um fator decisivo na preservação da influência e status da família, bem como pode servir como o cimento agregador de todo um clã e como um centro de confluência e preservação de tradições específicas. Reversamente, um personagem mal-afamado pode lançar uma sombra duradoura sobre sua descendência e prejudicar seu sucesso social. Não por acaso a manipulação ideológica da genealogia, suprimindo elos indesejados ou acrescentando outros que não existem na realidade, sempre foi uma prática comum desde a Antiguidade. Conhecer a genealogia é uma expansão do conhecimento do grupo familiar imediato, e a ignorância a respeito das raízes mais antigas muitas vezes tem efeitos similares ao desconhecimento dos pais biológicos pelas pessoas que descobrem terem sido adoptadas, o que muitas vezes desencadeia sentimentos de confusão, incompletude e abandono, desajuste social e crises de identidade. A criação de fantasias compensatórias é relativamente comum entre indivíduos e grupos sociais cujas raízes foram cortadas, como os judeus, frequentemente perseguidos e expulsos de vários países e cidades do Ocidente. Como seja o caso da expulsão dos judeus de Portugal ou para os que ficaram no país a sua conversão obrigatória ao cristianismo no reinado de D. Manuel I, os convertidos passaram a ser designados por cristão novos, sendo obrigados a mudar os seus nomes, como forma de manterem a ligação familiar adoptaram de um modo geral sobrenome ou apelido de nomes de árvores ou de animais.

A pesquisa genealógica popular costuma dar grande importância à descoberta de antepassados nobres, ilustres ou heróicos, e de fato, se a pesquisa descobre uma linha que recua por vários séculos ela passa a progredir quase invariavelmente através de famílias nobres, sendo extremamente escassas as informações genealógicas sobreviventes sobre as classes populares no passado distante, mas ainda não é de conhecimento geral o fato de que todas as pessoas vivas compartilham dos mesmos ancestrais remotos, e que todas tiveram tanto reis como escravos entre seus antepassados.

Embora seja um fato auto-evidente que todas as pessoas vivas descendem de antepassados que viveram na Antiguidade, a comprovação segura de toda a sequência de gerações para os descendentes ainda é impossível, havendo uma dramática lacuna de registros entre o fim da Antiguidade e a idade Média.

Fonte: Internet

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